“A tarefa essencial do professor é despertar a
alegria de trabalhar e de conhecer.”
Albert
Einstein
Você já parou para pensar que as atividades que
acontecem em uma escola no início de cada ano letivo devem ser planejadas e
replanejadas, sistematicamente pensadas?
Ocorre, em alguns casos, que os educadores escolares se equivocam
pensando que todos sabem qual é sua função, todos conhecem o ambiente de
trabalho e a dinâmica escolar. Se partem dessa ideia, tendem a considerar que,
se algo sai errado, é porque alguém que tem clareza de sua responsabilidade
deixa de honrá-la adequadamente.
Mas não é bem assim. E é por isso que
você precisará prestar bastante atenção no que será apresentado a seguir e
refletir sobre sua responsabilidade, como futuro(a) coordenador(a)
pedagógico(a), para atuar no sentido de prevenir situações problemáticas, bem
como promover situações saudáveis do ponto de vista educacional e sócio afetivo,
com o preparo minucioso das atividades do início do ano letivo.
De acordo com Bruno, Almeida e
Christov (2009), o contexto do início do ano em uma escola tem especificidades
como o ingresso de alunos novos (em uma escola nova; com propostas inéditas de
trabalho; espaços, professores, normas e colegas desconhecidos), contratação de
professores (que também desconhecem as regras da unidade escolar, bem como sua
dinâmica interna e o restante da comunidade que a compõem) e o retorno de
alunos e professores após o período de férias (que também passarão a trabalhar
com colegas diferentes).
Às vezes, tendo ouvido comentários
positivos e/ou negativos em relação à proposta de trabalho da escola e dos
educadores, do ambiente e dos colegas, há, ainda, expectativas diversas tanto
da parte dos alunos quanto dos professores sobre o que encontrarão à frente.
Nesse
contexto, o coordenador pedagógico não poderá perder de vista que o aluno é seu
foco, a razão de ser de todo o trabalho escolar. A escola é, decerto, locus privilegiado de acesso ao saber
sistematizado, construção de conhecimentos, aprendizagem de competências e
desenvolvimento de habilidades, mas tudo isso deve ocorrer tendo-se o bem-estar
do aluno como objeto de cuidadosa atenção e a consciência de que tanto alunos
quanto professores tendem a iniciar seus anos letivos com bastante energia
positiva que deve ser bem aproveitada. E isso pode e deve ser feito a partir da
boa organização das atividades do início do ano letivo.
A esse respeito, referindo-se ao
ingresso de uma criança na escola, adverte-nos Gusdorf:
“Parece que tudo se conjuga para dar a esse
instante fugidio o caráter solene que tem. A criança, herói obscuro dessa
iniciação, refugia-se nas lágrimas. A emoção mal a deixa perceber e não lhe é
sequer possível ter a consciência exata do que está vivendo. Os pais, na sua
satisfação, nada percebem: “Agora o pequeno vai à escola. Graças a Deus, vamos
ficar um pouco mais tranquilos durante o dia”.
“Quanto ao professor, já passou por outras
situações semelhantes: além disso, depara-se com o acontecimento em geral e não
em particular, e está preocupado em celebrar as liturgias escolares do novo ano
que começa, a fim de conseguir depressa fazer reinar a ordem em meio ao
amedrontado rebanho dos “novos”. Rapidamente, se estabelecem o hábito e a
rotina das obrigações diárias.”
(Gusdorf,
1995, p. 28-9)
Tente parar para pensar em como você se sente (e já
se sentiu) a cada início de ano ou semestre letivo. Que sensações positivas ou
negativas teve. A partir disso, pense também na responsabilidade que terá à
frente de uma coordenação pedagógica para que os alunos e professores com quem
trabalhar tenham prazer em suas atividades e em permanecer no ambiente escolar.
Será preciso que você, fundamentalmente, proceda com:
Será preciso que você, fundamentalmente, proceda com:
1.
Caracterização dos alunos (para
organizá-los em grupos ou turmas de uma sala de aula e também para motivar os
professores para recebê-los).
2.
Organização dos grupos de alunos 1 (que
poderão trabalhar em salas de aula ou não, conforme a tendência pedagógica que
você seguir).
3.
Preparação dos professores.
4.Recepção dos alunos.
Relativamente
à caracterização dos alunos, temos o caso dos que já são alunos da escola e
daqueles que estão ingressando. Quanto ao primeiro grupo, sua caracterização
pode basear-se em dados a ser extraídos de seu desempenho acadêmico e vivência
cotidiana do ano anterior. Já quanto aos alunos novos, é preciso que o(a)
coordenador(a) pedagógico(a) objetive, no processo de sua caracterização,
diagnosticá-los quanto a conhecimentos acadêmicos prévios, anseios, receios,
aspectos emocionais relevantes para o trabalho pedagógico e questões ligadas ao
seu relacionamento interpessoal e a valores e hábitos que norteiam suas ações.
Também é necessário, no caso de alunos novos, que haja a apresentação da escola
a eles (seus objetivos, princípios e normas).
Quanto à
organização dos grupos de alunos, é preciso que pensemos que não é possível, de
fato, que seja feita a partir da busca de turmas homogêneas. A heterogeneidade
entre os alunos, sua diversidade em termos comportamentais, cognitivos,
atitudinais e volitivos, é fato incontestável.
Além
disso, Bruno, Almeida e Christov (2009) apresentam-nos valiosos argumentos
contrários à formação de turmas homogêneas, conforme segue.
“1. Uma “classe dos fracos” acabaria com a
autoestima dos alunos.
2. Uma “classe dos fracos” tenderia a propiciar a denominada profecia autorrealizadora.2
3. As capacidades cognitivas dos alunos não são tão fixas, nem seu desenvolvimento tão linear para servirem de indicador de aluno fraco e forte.
4. As capacidades mentais são múltiplas. Assim, fraco em quê? Matemática ou Inglês? Ou ainda em Educação Física? O fraco numa matéria ou capacidade cognitiva pode não o ser em outra matéria.
5. A escola, idealmente, não se interessa só pelo cognitivo. Assim, não poderíamos considerar como aluno forte o aluno bem-humorado, o aluno espirituoso, o aluno aglutinador, o aluno com grande capacidade de lidar com conflitos emocionais e relações interpessoais?”
2. Uma “classe dos fracos” tenderia a propiciar a denominada profecia autorrealizadora.2
3. As capacidades cognitivas dos alunos não são tão fixas, nem seu desenvolvimento tão linear para servirem de indicador de aluno fraco e forte.
4. As capacidades mentais são múltiplas. Assim, fraco em quê? Matemática ou Inglês? Ou ainda em Educação Física? O fraco numa matéria ou capacidade cognitiva pode não o ser em outra matéria.
5. A escola, idealmente, não se interessa só pelo cognitivo. Assim, não poderíamos considerar como aluno forte o aluno bem-humorado, o aluno espirituoso, o aluno aglutinador, o aluno com grande capacidade de lidar com conflitos emocionais e relações interpessoais?”
(Bruno,
Almeida e Christov, 2009, p. 46)
Diante disso, parece-nos ser a melhor alternativa
na composição dos grupos de alunos a opção por turmas internamente heterogêneas
(em termos de sexo, idade e desempenho escolar) e homogêneas (ou seja, que cada
uma das turmas conte com as mesmas diferenças com que contam as outras).
“Uma das possibilidades para a formação de turmas
pelo professor coordenador é iniciar a atribuição a partir de alguns poucos
alunos que (...) tendem a imprimir grande influência na classe e buscar a
construção de certos núcleos dinâmicos que, com maior chance, propiciem uma
interação mais saudável ou equilibrada.”
(Bruno,
Almeida e Christov, 2009, p. 46)
Outra providência importante que o coordenador ou a
coordenadora pedagógica deve tomar no início do ano letivo, conforme anunciado
anteriormente, refere-se à preparação dos professores, profissionais cuja
atuação é fundamental para o trabalho dos alunos.
É preciso, ainda, conforme anunciado anteriormente, recepcionar bem os
alunos (tanto os novos quanto os veteranos, cada qual com expectativas
específicas). Aos novos é preciso que se ofereça oportunidades para conhecerem
tanto os profissionais da escola quanto seus espaços e os arredores da
instituição, de modo que se sintam apropriados do novo local de trabalho
acadêmico, que se sintam pertencentes ao novo grupo e, com isso, que comecem a
desenvolver atitude de respeito às pessoas, aos espaços e aos materiais.
Também são necessárias atividades de entrosamento entre os alunos
veteranos e os ingressantes.
Por fim, uma boa sugestão para a primeira semana de aulas é a revisão de
conteúdos e a apresentação dos novos que serão trabalhados, bem como dos novos
professores (o que pode ser mais bem realizado se, ao menos nessa semana, for
evitado muito rodízio de professores para que os alunos tenham uma convivência
inicial maior com cada profissional com quem irão trabalhar). Essa deve ser uma
semana “real”, ou seja, que não se preste a seduzir os alunos com pouco
trabalho (para que não se “assustem”) ou com sobrecarga de tarefas (para dar
aos alunos e às suas famílias a impressão de escola “forte”).
É preciso lembrarmo-nos que os professores também demandam atenção e
precisam ser acolhidos, recebendo da coordenação pedagógica dados sobre os
alunos com quem irão trabalhar. Receber os alunos precisa ser fruto de uma boa
conjugação entre trabalho e construção de um vínculo afetivo saudável, de modo
que fique claro a todos que o ambiente escolar pode e deve ser agradável, mas
que é, prioritariamente, um ambiente de trabalho, de empenho rumo à construção
de conhecimentos. Deve-se evitar, portanto, momentos de “sedução” de alunos, ou
seja, momentos no início do ano em que se acolhe os alunos a partir de atrações
que não correspondem ao que vai efetivamente acontecer no cotidiano letivo.
Esse momento de acolhida deve ser encarado como um adequado espaço-tempo
em que professores e alunos tomam consciência dos ritmos, espaços, formas de
trabalhar, limites e expectativas uns dos outros de modo a estabelecerem boas
relações de trabalho.
Referência
BRUNO, E.B.G.; ALMEIDA, L.R.; CHRISTOV, L.G.S.
(org.). O coordenador pedagógico e
a formação docente. 10.
ed. São Paulo: Loyola, 2009.
GUSDORF, G. Professores para quê? Para uma pedagogia da pedagogia. São
Paulo: Martins Fontes, 1995.
VILLELA, F.C.B.; GUIMARÃES, A.A. “Sobre o
diagnóstico”. In: GUIMARÃES, A.A. et al. O coordenador pedagógico
e a educação continuada. 11. ed.
São Paulo: Loyola, 1998.
