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sábado, 18 de janeiro de 2014

O CURRÍCULO E A AVALIAÇÃO

 
Ser Professor — Avaliar e Ser Avaliado
Nos dias atuais, a profissão docente envolve trabalhos diversos, como pilhas de cadernos, trabalhos diversos, provas, registro de notas, acontecimentos cotidianos, fichas, relatórios. Frequentemente, ao realizar estas atividades, o docente enfrenta dúvidas decorrentes da necessidade de chegar a uma conclusão sobre a aprendizagem dos alunos e alunas e expô-la aos estudantes, aos outros profissionais e aos pais. Neste sentido, a função do docente é informar em que situação de aprendizagem se encontra o aluno e atribuir um valor a seus conhecimentos. Entretanto, segundo Esteban (2003: 14)

“(...) avaliar, como tarefa docente, mobiliza corações e mentes, afetos e razão, desejos e possibilidades. É uma tarefa que dá identidade à professora, normatiza sua ação, define etapas e procedimentos escolares, media relações, determina continuidades e rupturas, orienta a prática pedagógica.”

A avaliação, durante muito tempo, é considerada como tarefa escolar, inscrevendo-se em um conjunto de práticas sociais que tomam o conhecimento como um meio de manipulação e dominação do mundo, concebendo o aluno como um sujeito a-histórico e cumpridor de papéis já definidos pelos que detêm o poder.
Dois modelos de avaliação ganham destaque: a avaliação classificatória e a avaliação qualitativa.
O primeiro modelo (avaliação classificatória) compõe em seu bojo a predominância das ideias de mérito, julgamento, punição e recompensa, exigindo o distanciamento entre o avaliador e o avaliado.
Para realizar suas atividades avaliativas, seguindo o modelo classificatório, o docente, segundo Esteban (op. cit., p. 15),

“(...) deve cercar-se de garantias para que o processo realizado produza resultados verdadeiros, objetivos, fidedignos, que explicitem o real valor de cada um dos alunos e alunas, os quais, classificados e hierarquizados, terão recompensas, punições ou os tratamentos adequados a cada caso.”
        Com esta prática avaliativa, o docente desconsidera questões inerentes ao ato de ensinar e de aprender, uma vez que medir o conhecimento para classificar os estudantes apresenta-se como uma tarefa que isola os sujeitos, dificulta o diálogo, reduz os espaços de solidariedade e de cooperação, estimulando a competição.
         No segundo modelo, a avaliação é concebida como qualitativa, um modelo de transição, por ter como ênfase a compreensão dos processos, dos sujeitos e da aprendizagem. A avaliação qualitativa se propõe a reordenar o processo avaliativo pela incorporação de alguns princípios do conhecimento-emancipação, em especial da comunidade com suas dimensões de participação e de solidariedade. Permite transformações no processo, dando uma ênfase aos aspectos subjetivos e coletivos da avaliação.
De acordo com Esteban (2003: 30), a avaliação qualitativa

“(...) como modelo de transição, anuncia novas possibilidades que conectam a avaliação aos processos de democratização da escola como parte da dinâmica de emancipação social. (...) Traz desafios que podemos enfrentar vinculando nossa discussão ao movimento em que se tece o conhecimento-emancipação.”

Deste modo, a avaliação qualitativa deve ser pensada e realizada em uma dimensão de investigação, pois constitui um diálogo com experiências cotidianas na escola e com a formulação teórica em que ambos indicam alguns desafios, sobre os quais enfatizam a produção do conhecimento como processo realizado por seres humanos em interação, que, ao conhecer, adquirem autoconhecimento; ao produzir o mundo no qual vivem, produzem; ao viver, esgotam suas possibilidades de vida individual e estreitam os laços que unem cada um à infinita rede da vida. Neste contexto, a avaliação qualitativa enquanto um instrumento investigativo proporciona reformular outras compreensões das vivências compartilhadas no processo pedagógico, principalmente àqueles pertencentes às camadas populares.
Ainda conforme Esteban (2003: 35), compartilhando e investigando o processo, o docente pode incorporar novos conhecimentos, pois ao conhecer a realidade sobre

“(...) cada um de seus alunos e alunas, sobre o coletivo do qual participam, sobre sua ação como docente, sobre sua atuação no coletivo; pode ir ajudando cada um de seus alunos e alunas a tomar a prática pedagógica, o processo aprender-ensinar, como material para sua própria reflexão (...).”

A defesa de Esteban está alicerçada no pressuposto de que aprender profundamente os processos torna mais fácil o ato de ensinar e aprender. O docente, ao avaliar seus alunos, é avaliado em um processo coletivo, cooperativo e solidário, que busca a ampliação permanente da qualidade da escola, pautada na preocupação com o conhecimento a ser adquirido pelos alunos.
Referências
ESTEBAN, Maria Teresa (org.). Escola, Currículo e Avaliação.São Paulo: Cortez, 2003.
______. (org.). Práticas avaliativas e aprendizagens significativas: em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre; Mediação, 2003.
______. “A avaliação no cotidiano escolar”. In: ESTEBAN, Maria Teresa (org.). Avaliação: uma prática em busca de novos sentidos2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
______. Escola, Currículo e Avaliação. São Paulo: Cortez, 2003 (Série cultura, memória e currículo).